Categorias
Carreira

Design inclusivo: uma metodologia para impulsionar inovação

Você já deve ter ouvido termos como “design inclusivo” ou “design universal”, mas você sabe o que isso significa e qual o impacto da aplicação em empresas e organizações?

Nós conversamos com a  Beatriz Lonskis, consultora sênior em UX na Thoughtworks. Nesse bate-papo exclusivo, ela compartilhou suas experiências profissionais, apontou dicas para quem está começando em design e explicou conceitos importantes.

Quer saber mais? Leia abaixo:

Nos conte um pouco sobre sua trajetória profissional. 

A minha jornada profissional iniciou em design gráfico e editorial em 2005. Ou seja, atuo com design há 17 anos. Trabalho com UX desde 2011. Já trabalhei em algumas empresas de diversos segmentos como Editora Abril, Terra Networks, Valor Econômico e Itaú.

Atualmente, atuo como consultora sênior em UX na Thoughtworks. Recentemente, também comecei a atuar como especialista em acessibilidade e mentora para pessoas surdas, que têm interesse em começar ou migrar para a área de UX.

Você tem quase 20 anos de experiência em design e construiu uma carreira admirável. Quando você observa o mercado de trabalho atual há mais oportunidades de trabalho para pessoas com deficiência? 

Segundo a pesquisa Agência Brasil, menos de 1% dos profissionais com alguma deficiência estão no mercado de trabalho.

Ainda há muito chão pela frente para maior inclusão profissional das pessoas com deficiência. 

Mas, felizmente, há um número crescente de empresas conscientes e comprometidas com diversidade, equidade e inclusão (DEI).

Estão surgindo vários programas de capacitação e contratação dos profissionais com deficiência, por exemplo.

O que é design inclusivo e o que mais te encanta na área?

Design inclusivo é uma metodologia que contempla toda a gama de diversidade humana como habilidade, cultura, idade, gênero, entre outras diferenças humanas.

Me apaixonei por essa metodologia quando comecei a estudar em 2017, porque condiz muito com a minha visão sobre projetar o design, que é desenvolver e criar os produtos e serviços para todas as pessoas. 

Ou seja, entender as suas necessidades e incluir as pessoas na sociedade ao invés de excluí-las. Vou compartilhar um trecho que li no livro “Introdução do Design Inclusivo”, de Danila Gomes e Manuela Quaresma: 

“Além de ser uma ferramenta de inovação diante da competitividade industrial, o design busca soluções para questões que afligem a sociedade em áreas como saúde, educação e meio ambiente”. 

Cada vez mais as empresas estão investindo em formas de gerar melhores experiências para os usuários, assim como aprimorar a inclusão e acessibilidade em suas plataformas. Quais são os principais desafios que uma organização enfrenta ao implementar design inclusivo em seus processos e plataformas?

Entre os principais desafios, estão a falta de capacitação técnica e a estrutura dos times especializados em design inclusivo e acessibilidade digital.

 Além de implementar a cultura de acessibilidade digital nas empresas.Tem que estar estabelecida essa cultura no cerne da empresa para, então, escalar os conhecimentos e a entrega dos produtos inclusivos e mais valiosos. 

Em contraponto, quais os principais benefícios da implementação de design inclusivo em uma empresa?

As empresas que adotam a acessibilidade como uma proposta de valor alto, como um motor de inovação, acabam impulsionando a inovação.

Com os produtos mais inclusivos e, consequentemente, inovadores, atendem maior número de clientes. 

Os produtos inclusivos se tornam mais inovadores por conseguirem adotar algumas funcionalidades, que não foram contempladas. Por exemplo, o Xbox Adaptive Controller que chegou no mercado nacional ano passado.

Também há uma funcionalidade de adicionar o áudio com a pronúncia correta de seu nome no Linkedin.

Você poderia citar alguns exemplos de design inclusivo em que você trabalhou e que te fazem sentir orgulhosa?

Aqui na Thoughtworks, fizemos uma pesquisa qualitativa interna sobre diversos perfis das pessoas com deficiência.

Também realizamos workshops com stakeholders para o alinhamento sobre os resultados da pesquisa e geração de insights ricos para as futuras ações e iniciativas. Foi um passo muito importante e especial para mim. 

Ao pesquisarmos sobre design inclusivo, há outros termos que aparecem com frequência, como “design universal”. Quais as principais diferenças entre design inclusivo e design universal?

Pergunta excelente e importante! Os termos são bem parecidos, mas os conceitos diferem entre si. O design universal olha para uma solução que atenda o maior número possível de pessoas. Nisso, as características particulares das pessoas não são contempladas, com pouca possibilidade de adaptação.

O design inclusivo, por sua vez, considera diversas possíveis soluções que atendam a diversidade nas necessidades das pessoas usuárias. 

Design universal é comumente abordado nos espaços arquitetônicos/físicos enquanto design inclusivo é contemplado nos ambientes digitais, onde é possível experimentar e desenvolver diversas soluções digitais para atender à variação nas necessidades diversas das pessoas.

Quais suas dicas para quem gostaria de trabalhar com design inclusivo?

Comece estudando acessibilidade e design inclusivo. Também teste métodos de design inclusivo nos projetos em que estiver atuando. Por exemplo, fazer pesquisas qualitativas e quantitativas com as pessoas de diversos perfis e necessidades e construir personas inclusivas.

Explicar aos gestores, colegas (de diversos papéis) e stakeholders sobre a importância de adotar a acessibilidade no estágio inicial ao invés de deixar para a etapa final.

Também ajuda cultivar networking com os profissionais de acessibilidade e design inclusivo para trocar informações sobre o mercado brasileiro de acessibilidade e suas ferramentas. 

Recado final:

Antes de encerrar a entrevista, gostaria de convidar os leitores a refletir que a inclusão tem muito a ver com projetar o futuro. Como diz a designer Kat Holmes, os momentos de transição tecnológica possibilitam projetar novos modelos que garantam que não gerarão exclusão. 

Se não for considerada a importância da inclusão no cerne da inteligência artificial, corremos o risco de ampliar um ciclo de exclusão em grande escala, difícil de ser revertida.

Enfim, nós, os profissionais de tecnologia, sempre questionamos o status quo, pensamos de forma sistêmica, observando e prevendo o impacto de nossos projetos nas pessoas e no ecossistema e como podem colaborar (ou não) na construção de um mundo melhor. Quem está dentro?

Quer impactar sua carreira? Entre em contato e descubra como podemos te auxiliar.