"Não existe receita de bolo para a carreira perfeita"

“Não existe receita de bolo para a carreira perfeita”

Confira entrevista feita com Renata Tonezi, especialista em pesquisa e estratégia para produtos e serviços digitais!

Renata Tonezi trabalha com produtos e serviços digitais há mais de quinze anos e atualmente lidera iniciativas que visam mapear insights, torná-los acionáveis e provocar uma cultura de experimentação orientada ao futuro. Confira a entrevista feita com ela!

1. O que brilhou seus olhos na área de pesquisa e forecasting a ponto de escolhê-la como profissão?

Nos anos 2000 já trabalhava como web designer em uma agência. Abri uma pequena empresa, e como webmaster fazia o desenvolvimento completo de sites, o que me abriu portas para trabalhar em grandes empresas, como o Terra Networks (2004), e Editora Abril (2008).

Fui responsável pelo redesign e atualização dos sites das revistas NOVA e CLAUDIA. Nessa época a pesquisa e os processos de design não eram muito valorizados nas empresas. Nesse contexto, a minha relação com a pesquisa teve início. Fazíamos pesquisas em grupo com as leitoras da revista, testes básicos de percepção e de usabilidade, e análise de feedbacks em redes sociais (era o começo deste tipo de interação com as marcas).

Ao longo dos anos fui me envolvendo com pesquisas rápidas ou mais profundas e estudos de campo, com objetivo de chegar no conceito e desenvolvimento de um produto. Ao longo desse processo, me apaixonei pelo universo das metodologias e descobri que amava fazer pesquisa ao mesmo tempo que percebia o valor que esses insights geram para os negócios e para os produtos que estávamos construindo. Aprendi que o que indica se o que você faz tem valor ou não, é por meio de feedbacks de quem realmente importa: as pessoas que usam o seu produto.

Fiz parte da história do início da transformação digital no Itaú (2013), quando foram criadas as primeiras células de desenvolvimento de novos produtos trazendo o conceito de startup para dentro da empresa. Fui a primeira User Research a atuar nesse modelo, onde pude experimentar o poder da filosofia Lean Startup para potencializar o uso do aplicativo Tokpag (fazia uso da tecnologia peer-to-peer para oferecer rápidas transferências entre contatos), do Aplicativo PagContas (permitia aos clientes pagar até 10 contas ao mesmo tempo com facilidade), e de outros produtos digitais.

Participei dos primeiros desenhos dos processos de pesquisa in house e comunidades online para interagir ativamente com os clientes, juntamente com o time de pesquisa do marketing. Tenho muito orgulho de toda essa construção, e que de forma orgânica me abriram caminhos como profissional. Acredito que faz parte do desafio como pesquisador, defender uma cultura de aprendizado contínuo e aprender a tornar sua pesquisa valiosa, ou seja, fazer com que os times com os quais trabalhamos, sintam que a pesquisa é essencial.

Hoje eu enxergo que a pesquisa é um dos caminhos do design para adquirir profundo conhecimento e compreensão da experiência completa do usuário, assim como mostrar caminhos de onde podemos criar mais vantagem competitiva, desempenhando um papel mais estratégico. E esse é um dos caminhos de todo o processo que mais me atrai.

2. Como foi a experiência de trabalhar como professora?

Foi um processo de muito aprendizado e de gratas surpresas. Acredito que ser professor exige preparo, conhecimentos, dedicação e comprometimento de ajudar o outro a se desenvolver. É também necessário criar vínculos e estabelecer uma parceria na qual ambos aprendem e crescem.

A minha carreira foi se moldando em torno dos pilares: (1) cultura de inovação, (2) capacitação em metodologias, e (3) comunicação. De alguma forma sempre me envolvi com esses temas, seja fazendo pesquisa de novas metodologias e abordagens para testar e experimentar, seja realizando treinamentos e capacitando outros profissionais com esses novos métodos, ou por meio da organização de eventos e participação ativa nas comunidades.

Vejo a sala de aula como um ambiente saudável para colaboração, permitindo que as pessoas cometam erros e expressem o que pensam. Além dessa troca, é um espaço de experimentação. Essa construção começa no momento em que entendo quem são os alunos, suas expectativas, momentos de carreira, e com base nesse entendimento, busco adaptar os meus conteúdos e dinâmicas, para cada contexto, tornando os processos iterativos como parte da minha dinâmica de trabalho pessoal.

3. Você trabalha com o digital há mais de 15 anos. Como você descreveria esse tempo?

Uma verdadeira montanha russa, rs… Acredito que parte da maturidade como designer envolve absorver o contexto e se adaptar. No início, meu trabalho envolvia o design gráfico, digital, identidade visual, branding, e com o passar dos anos a atuação passou a ser cada vez mais estratégica. Hoje, atuo no time de estratégia de negócios Omnichannel no Itaú, como especialista em pesquisa e estratégia para produtos e serviços digitais.

Além da mudança do mercado e do contexto, eu fui fazendo escolhas diante dos caminhos que foram surgindo. Fui ajustando a minha rota, me aprimorando, fazendo cursos, treinamentos, e participando de discussões nas comunidades com outros profissionais. Essa troca é sempre muito rica, e sempre me trouxe insights e boas reflexões.

Não existe receita de bolo para a carreira perfeita, e a minha foi e ainda é, cheia de dilemas e questionamentos em relação a evolução da carreira de especialista, e sobre quais caminhos seguir.

4. Como você tem lidado com o processo criativo em meio à pandemia?

Por um lado, o isolamento trouxe para alguns um refúgio favorável ao exercício do pensamento e a proximidade com a família, por outro lado, a privação de ter experiências presenciais que estimulavam a criatividade, foi sentida como uma barreira. Nesse contexto, surgiram ferramentas e novos processos, que trouxeram aspectos positivos e de melhoria para as dinâmicas remotas em grupo, e para a organização e documentação do trabalho. 

Para lidar com os novos desafios, comecei a testar formas diferentes de trabalhar, dedicando tempo para fazer uma coisa de cada vez, incluindo na minha agenda o horário do almoço, do estudo, de me exercitar, entre outras coisas. Estamos aprendendo juntos na prática como se faz o trabalho remoto criativo e como podemos garantir que todos que trabalham conosco consigam também fluir.  

5. Em que momento você decidiu liderar iniciativas que visam mapear insights, torná-los acionáveis e provocar uma cultura de experimentação orientada ao futuro?

Eu gosto me identificar como pesquisadora e investigadora de futuros —  sempre em busca sinais de mudanças e de novos significados. Venho aprimorando meus conhecimentos e trabalhando com conceituação de cenários futuros há alguns anos. Não existe um único curso que te leva a esse caminho, é uma construção em constante evolução. 

De forma mais concreta, em 2018 comecei a liderar uma iniciativa chamada muVUCA, inspirada no mundo *VUCA —  é um acrônimo em inglês *Volatility, Uncertainty, Complexity, Ambiguity, e que busca tentar descrever o ambiente em que vivemos. O desafio envolvia mapear insights e cenários que estavam por vir com uma lente de dez anos, e contribuir com a evolução da estratégia digital dos canais. 

O pensamento e o olhar que busco exercitar é o de manter meu radar ligado, o tempo todo, em busca desses sinais e do novo. Eu não vejo o futuro como algo distante… e sim, como um conjunto amplo de possibilidades, das mais diversas, que podem se desdobrar com surpreendente rapidez. E também como uma estratégia para começar a agir agora, e empreender ações e experimentos em direção aos cenários futuros preferíveis.

Pensem nas mudanças tecnológicas, ambientais e políticas, e que provavelmente vão afetar a sociedade e os negócios. Então a pergunta que podemos nos fazer é, como podemos nos preparar para um mundo diferente, até mesmo inimaginável, que chegará mais rápido do que o planejado?

6. Quais dicas você daria para quem quer  investir na área de pesquisa e forecasting?

Comece por buscar conhecer a empresa onde trabalha e seus valores, entender o mercado, saber quem são seus clientes e quais os seus perfis. Se questione sempre no sentido de pensar em como pode melhorar determinada experiência para quem usa o seu produto. Acompanhe os resultados para entender se as ações realizadas estão dando certo, ou quais questionamentos estão trazendo.

Pesquisar significa obter uma visão ampla do contexto. E esse exercício envolve mapear, observar, escutar e registrar. A dica é: exercite a sua curiosidade, questione o mundo, desafie o estabelecido e esteja aberto para aprender sobre o inesperado, e mudar de direção à medida que se conhece as reais necessidades das pessoas. Busque desenvolver uma visão de diversos contextos, teste ferramentas e analise dados de forma qualitativa e quantitativa.

Pesquisar ajuda a reduzir as incertezas. E a prática de exercitar o olhar orientado ao futuro, não é apenas tentar prever ou identificar o que vai acontecer, mas estar mais preparado para o que pode acontecer, e evitar surpresas desagradáveis que poderiam ter sido antecipadas.

Aprender não é a única forma de aprendizado. Não precisamos ter medo de mudar ou desaprender hábitos ou métodos que não agregam mais. Experimente desaprender e abandonar os paradigmas que o mantêm preso onde você está, e dê espaço ao novo!

7. Quais são suas perspectivas profissionais para o futuro? 

Estamos sentindo uma grande mudança na forma como percebemos o mundo e pensar em mudanças, seja do ponto de vista demográfico, econômico, tecnológico… significa entender quais são os impactos na vida das pessoas, quais são os novos comportamentos que estão surgindo, para então conseguir interpretar e criar pontes para que possamos desenvolver produtos e serviços que sejam benéficos para quem os usa.

A área de pesquisa e ciência do comportamento é um campo de estudo amplo e multidisciplinar, que engloba diversas disciplinas, como a psicologia, antropologia, ciências sociais, cognitivas, de dados… e me vejo nessa constante evolução. 

A busca por novos conhecimentos é a base da nova economia e que devemos ter como mindset, no sentido de evoluir a nossa capacidade de aprender. O futuro do trabalho, não é apenas sobre empregos ou habilidades, mas sim sobre a busca pela nossa própria identidade e também pelo prazer que o trabalho nos proporciona. Tenho buscado evoluir nesse aspecto, como profissional e como ser humano, para encontrar o equilíbrio entre satisfação pessoal, e em formas de contribuir para um mundo mais diverso, humano e sustentável.

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