“Nós temos em mãos a oportunidade de mudar as coisas que conhecemos para melhor”

Confira entrevista feita com Tereza Alux, Product Designer e Diretora da Ladies That UX, organização global que busca encorajar mulheres que trabalham com UX e Tecnologia!

Tereza Alux trabalha com UX há quase vinte anos, é Designer de Produto no Mercado Livre e Diretora da Ladies That UX, uma organização global cujo objetivo é melhorar a participação feminina no mercado de tecnologia e experiência. Confira entrevista feita com ela: 

1) Como e quando surgiu seu interesse por UX?

Sempre fui uma pessoa muito curiosa e desde criança me destaco como uma ótima desenhista. Meus brinquedos eram blocos de papel sulfite e lápis de cor. Ostentação pra mim era o kit de 36 cores da faber castell e meu sonho era me tornar ilustradora e desenhista da disney. Com o tempo fui me acostumando com a ideia de que talvez fosse mais viável trabalhar como diretora de arte, ilustradora e designer gráfico em uma editora ou veículo de comunicação. 

Aos 15/16 anos, comecei a me aventurar programando layouts de blogs e pequenos sites e achava muito impressionante digitar uma série de códigos e ele virar uma interface. Essa era uma forma simples e fácil de interagir com as pessoas, além de resolver problemas e de facilitar a vida. E foi aí que eu percebi o que realmente gostava de fazer: construir e projetar produtos e serviços que atendam as necessidades das pessoas e que tornem a vida mais fácil, por meio da tecnologia.

2) Você trabalha com UX há quase vinte anos. Como você descreveria esse tempo?

Nos primeiros oito anos da minha carreira, que foi de 2002 a 2010, minhas principais funções eram web designer e webmaster fazendo parte dos times de comunicação ou TI dentro das empresas, fábricas de software ou atuando como diretora de arte em agências de publicidade, sempre com foco no digital.

Eu recebia os briefings de uma área de atendimento informando a necessidade do cliente, ou eu mesma captava esse briefing do cliente, desenhava a arquitetura, fazia uma prévia do que seria o conteúdo, desenhava a interface, desenvolvia e publicava os sites. Nessa época, o design era voltado para demandas de comunicação, publicidade ou marketing. 

Com o tempo e a mudança de comportamento e consumo, esse escopo foi se adaptando para métodos que priorizam a construção de serviços que resolvem problemas, que tornam a nossa vida mais simples e ajudam as empresas a passar pela transformação digital, ou que se adaptem ao atual cenário. 

3) Quais os principais desafios que você enfrentou ao longo da sua trajetória profissional?

Desde o início da minha trajetória eu lido com coisas que as pessoas não estavam acostumadas a ver e que muitas vezes não entendiam como funcionava ou não viam o potencial que eu via. Ouvi inúmeras vezes frases como “Para que mudar? Nós sempre fizemos assim.”, “Por que você está inventando isso agora?” ou “Isso não vai dar em nada.” para soluções que eu propunha. 

Soluções essas que tinham como base digitalizar e automatizar processos para torná-los mais rápidos, seguros e baratos. Um case bem interessante que lembro até hoje era em uma situação onde eu propus permitir que as pessoas pudessem se inscrever em cursos e eventos da instituição através de um formulário no site, em um cenário onde a inscrição era feita por telefone ou pessoalmente. Eu insisti tanto que me deixaram publicar a solução. As vendas subiram inúmeros por cento e houve uma enxurrada de elogios. Deu pra sentir o constrangimento na cara de quem não acreditou na minha proposta. Não permaneci na empresa, mas provei principalmente para mim mesma que eu executo bem o meu trabalho. 

4) Quais dicas você daria para quem quer iniciar carreira na área de UX?

Estudem mas não se limitam a ferramentas, dinâmicas ou técnicas de UX. Conhecer os métodos é muito importante, mas procurem enxergar além do que está nas aulas e nos livros. Estudem a empresa, o contexto no qual ela está inserida, o produto que ela oferece, o público que ela atende. Estude as pessoas e os seus objetivos, suas angústias, seus problemas, seu potencial. 

Se importe de verdade em resolver problemas. Só assim poderá oferecer soluções próximas (ainda reforço: próximas) ao que elas precisam. Lembre-se do que Henry Ford disse quando lançou seus primeiros automóveis: “Se eu tivesse perguntado às pessoas o que elas queriam, elas teriam me dito ‘cavalos mais rápidos’.” – Enxergue além do que as pessoas dizem.

5) Onde você encontra inspiração para estar constantemente inovando?

Principalmente no desafio. Quando nos deparamos com algo que precisa ser melhorado ou resolvido, é apaixonante pensar nas possibilidades de solução e em como podemos, inclusive, ultrapassar as barreiras e ir muito além, descobrindo que podemos criar coisas novas e inovar. Nós temos em mãos a oportunidade de mudar as coisas como conhecemos para melhor. Minha inspiração também vem de muitas pessoas que admiro, não só designers mas líderes, filósofas, escritoras, engenheiras, desenvolvedoras, historiadoras, médicas e todas as pessoas incríveis que fazem parte da comunidade, compartilhando, apoiando e encorajando outras pessoas.

6) Como surgiu a ideia de criar uma comunidade de UX para mulheres?

Vejam que a minha história é repleta de momentos onde as pessoas não acreditavam em mim. Afinal, eu era uma moça, estudante ou recém formada de um curso que ninguém nem sabia o que era, sugerindo mudanças nas empresas e nos processos que já existiam há anos e afirmando que com aquelas ideias, poderíamos alcançar resultados melhores.

As pessoas costumavam olhar pra mim como se eu fosse doida. Talvez eu seja. Para a minha sorte e para a frustração dessas pessoas, eu acreditava em mim, e pude colocar muitos projetos bons em produção. Talvez eu não acreditasse tanto em mim quanto eu gostaria, mas não posso dizer que não fiz coisas interessantes, mas com certeza teria feito muito mais. E é pensando nessa moça, que estava dando os primeiros passos, ouvindo vários “nãos”, comentários debochados, que eu insisti no desafio de trazer essa comunidade. 

É uma comunidade onde nos permitimos errar, falar sobre os problemas, falar sobre os vacilos, nos ajudarmos e nos apoiarmos. Tem muita coisa boa, muitas pessoas incríveis fazendo parte. Posso dizer que só tem pessoas boas, acolhedoras e positivas? Não. Afinal, é uma comunidade que só no Brasil conta com mais de 30 mil pessoas e como pessoas, estamos em um processo de evolução, sempre em beta contínuo e tendo muito a aprender. 

Mas nós, da organização, nos esforçamos para ser o exemplo da mudança de comportamento e de realidade que gostaríamos de ver no mundo. Temos tido ótimos resultados e espero termos cada vez mais. No entanto, também temos nossas limitações. Entre a rotina intensa de trabalho, estudar, cuidar dos afazeres domésticos, dar atenção a família e amigos, também dedicamos tempo para fazer a nossa parte nesse projeto. Não conseguimos fazer tudo, mas fazemos o possível e de coração.  

Além de claro, estar cansada de ouvir absurdos como “Não existem mulheres talentosas trabalhando com tecnologia.” ou “Prefiro não contratar mulheres porque elas não sabem trabalhar em equipe.” Trouxe essa comunidade também para mostrar que existem sim, muitas mulheres incríveis, fazendo um excelente trabalho, se destacando e ajudando outras pessoas, encorajando e inspirando a seguir pelo mesmo caminho. 

7) As mulheres ainda são minoria na área de Design. Nesse contexto, como tem sido para você comandar um projeto global como a Ladies That UX?

Hoje a questão da participação feminina já está muito mais equilibrada do que quando iniciei os estudos, no entanto, é triste dizer que ainda ganhamos menos para cargos e funções equivalentes ao dos homens e que ainda somos muito pressionadas e assediadas. 

São questões muito maiores do que a comunidade pode alcançar, são questões culturais. Nós temos projetos e iniciativas dedicadas a acolher e apoiar a mudança de comportamento, do contexto social que vivemos, mas é um trabalho artesanal. Gostaria de dizer que estamos tendo um impacto muito positivo nesse sentido, mas infelizmente não está e se está, é a passos curtos. Mas seguimos fazendo o que podemos, dentro das nossas limitações, torcendo para as pessoas encontrem conforto e apoio no nosso trabalho, ou que ele tenha o mínimo de impacto positivo a quem precisa.  

8) Como é a rotina de trabalho como Product Designer no Mercado Livre?

O Mercado Livre é uma empresa com um forte espírito de colaboração e inovação. Os nossos valores podem dar um gostinho de como é trabalhar aqui, que são: “Criamos valor para os nossos usuários”, “Empreendendo assumindo riscos”, “Competimos em Equipe para Ganhar”, “Damos o Máximo e nos Divertimos” e “Estamos em Beta Contínuo” e “Executamos com excelência”. 

Esses princípios incentivam uma cultura empreendedora, acolhedora, amigável e corajosa. Meus colegas são pessoas sempre muito engajadas nos projetos, empolgadas com os desafios e ansiosas para compartilhar conhecimento, trabalhar em equipe para sermos juntos bem sucedidos nas nossas propostas, e entregarmos valor para as pessoas. Estamos juntos encorajando o empreendedorismo em toda a América Latina, ajudando as pessoas a atingirem seu melhor potencial. Tornando sua vida de empreendedor mais fácil. É um orgulho fazer parte do time de UX de uma empresa tão bacana.   

9) Qual conselho você daria para quem quer migrar de profissão e apostar na área de UX?

Estudem muito, leiam muito, não parem de se aprimorar. Design é uma área que não podemos ficar parados, estamos sempre estudando as pessoas e os desafios.  Não pense que a sua bagagem não tem importância, que precisa apagar tudo que já viveu para mudar de profissão. É muito importante que esteja aberto a novas experiências, dinâmicas e pontos de vista, que se mantenha uma pessoa ensinável. Principalmente porque você está aprendendo uma profissão nova para você. Mas não invalide tudo o que você já viveu. Sua bagagem é extremamente importante para criarmos novas soluções. Acredito nisso, e acredite em você. 

10) Quais são suas expectativas profissionais para o futuro?

Espero conseguir melhorar a vida das pessoas, trabalhando com produtos e serviços que façam a diferença e que tornem a vida mais confortável e prazerosa, para que então, elas possam focar nas coisas que são realmente importantes para elas. Quero que elas encontrem apoio no meu trabalho, para que possam alcançar seus objetivos.   

No ambiente de trabalho espero que as pessoas aprendam cada vez mais, a trabalhar em equipe, a serem tolerantes com as diferenças, a serem menos competitivas e a terem respeito umas pelas outras. A competitividade saudável é interessante, mas é muito mais importante a habilidade de trabalhar em grupo. Como diz o poeta John Donne em Meditações VII: “Nenhum homem é uma ilha isolada”, “Se quisermos ir longe, precisamos ir juntos”. Colaboração é um dos ingredientes chave para qualquer tipo de inovação e construção do futuro incrível que todos almejamos e precisamos.

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Thaís Haro
Thaís Haro
5 meses atrás

Muito bom!!! Obrigada por compartilhar sua experiência, Tereza <3